[CARTA (de desvelo?) DO TRECHO INICIAL DE “Antes, o verão”, DE CONY – 1964; das melhores coisas que ele jamais escreveu]
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
sábado, 8 de janeiro de 2022
A doçura da docência
Uma gripe aterrissada em pleno almoço de Natal me colocou de molho por um bom par de semanas, servindo para me lembrar de que os melhores planos não resistem ao ataque fortuito do imponderável.
Estava devendo um relato dos meus primeiros dias, semanas, meses, como professor, mas a vida se ocupou de mim e os registros (como as fotos que esquecemos de tirar quando as resenhas e festas são realmente boas) foram ficando adiados. Dias de chuva vão se enfileirando, enquanto acrescento à gripe a recuperação de uma pequena cirurgia - decido escrever.
São Pedro da Aldeia, onde servi com contrato temporário entre 6 de agosto e 16 de dezembro de 2021, foi minha cidade de batismo como docente - lá experimentei minhas primeiras realidades escolares e administrativas, algumas friezas de colegas que não quiseram se dar ao trabalho de travar contato com o "temporário", e a doçura do trabalho de mestre de crianças e jovens. Em São Pedro, abrindo a alma para alunos felizes por estarem tendo naquele ano, pela primeira vez, um professor de língua portuguesa, dividi a aflição de estar começando uma carreira nova: "Não comecei a trabalhar hoje, como vocês podem imaginar pela minha careca e pelos persistentes cabelos brancos - mas sou novo nisso, estou aprendendo a ser professor".
Não sou particularmente babão (embora tenha lá meus gatilhos pavlovianos), mas uma década de trabalho corporativo insatisfatório se derreteu quando percebi o brilho feliz de reconhecimento nos olhos de alguns de meus alunos em minha segunda aula. Não há paga para esse tipo de felicidade. Ou para a emoção de ver o próprio nome preenchido pela primeira vez no campo "Professor:".
Em Rio das Ostras, onde sou efetivo, escolhi uma escola-casa (chama-se Padre José Dilson Dórea) que parece ser um ímã de almas boas. A eles, que me acolheram desde o primeiro minuto como colega-calouro um tanto retardatário na carreira de ensinar, narrei todos os dias os meus encantamentos com o carinho que começava a colher em São Pedro, com meus aluninhos de 7º, 8º e 9º anos. Alguns já me assaltavam com perguntas sobre o ano seguinte, se poderia eu ser seu professor em 2022; outros brincavam com meu nome no quadro, juntando a ele o vermelho amoroso do coração; uma aluna de sétimo ano, em uma aula de Produção Textual que eu sequer começara (haviam se passado apenas 3 minutos, nos quais eu estava colocando minhas coisas sobre a mesa, cumprimentando os alunos e puxando algum assunto de gente-para-gente), saiu-se com uma frontal exaltação sobre a minha "aula muito boa", ao que retruquei: "Mas como assim...? Eu, bom professor? Mas nem fizemos nada ainda?"
- Professor, já dá pra ver que a sua aula é boa. O que mais tem é professor que entra na sala, vira pro quadro, fica escrevendo um monte, nem olha pra gente; depois, senta na mesa e manda a gente copiar, fazer dever. Nem quer saber de nada da gente.
Ontem, falando com minha irmã que mora em Toronto, disse a ela que sei bem dos meus limites; sou um péssimo professor de português ainda. Minha didática é incipiente, ainda não domino meu espaço, ou meu tempo, não sei com segurança que textos usar, quais as melhores abordagens ou exercícios. Sei que tenho muito a melhorar e mora em mim um desejo sincero de fazer isso. Como falei a meus alunos em todas as primeiras aulas que dei, meu propósito é esse: aprender a ser um professor melhor.
Mas, se sou tão cru como profissional de língua portuguesa, acho que posso dizer que não entro em campo igualmente verde como educador. Meus alunos, em especial os de São Pedro da Aldeia, com quem as trocas em sala foram mais intensas (o retorno presencial em Rio das Ostras não foi o esperado), me fizeram crer assim. Em turmas diferentes, ao final do último encontro, recebi elogios espontâneos e mesmo abraços. Dividi bolos e refrigerantes e bombons. E votos de felicidade pela vida que se estendia para além daquelas salas e convívio. Esses 5 meses de estreia docente em 2021 me mostraram o quanto da docência bem sucedida reside na doçura de humanidade que levamos (ou não) para frente daqueles que são humanos como nós - não números, não estatísticas, não nomes num diário.
Sentirei saudades dos meus primeiros alunos de São Pedro da Aldeia, com os quais troquei gestos de amor verdadeiramente freireano. Espero conseguir acompanhar alguns de seus voos por aí, com a ajuda das redes sociais.
E antevejo com satisfação e orgulho os próximos meses e anos de convívio com a comunidade escolar da qual passei a fazer parte e com a qual quero contribuir com toda a minha imperfeição curiosa: Fernanda, Gabi, Eva, Carol, Rodrigo, Hugo, Thiago, Gabriela, Luciana, Pedro, Marcos César, Vinicius, Alex, Ana, Isa, Juvenal, Teo, Layon, Lourdes, Felipe, Fábios (são três!), Patricia, Orbela, Roberto, Marcão, Jefferson, Cristiano, Bia... Que bom ter me juntado a vocês, que bom ter plantado tantas sementes de amizade assim, aos 51 anos.
Ninguém solta a mão de ninguém... E ninguém deixa o Padre. :-)
sábado, 7 de agosto de 2021
Convalescendo da própria vida
Essa vitória, esse começo de recomeço, eu dedico especialmente (sem esquecer nenhum dos outros envolvidos, como minha esposa , meu pai e meus filhos...) à minha mãe Leila, cúmplice das dores dessa árdua travessia, que luta hoje contra dois males tão sérios quanto uma vida em desgoverno como a minha: um Parkinson debilitante e uma depressão desesperadora e atroz. Se para o primeiro não há cura, mas tratamento e acomodação, para o segundo - tratável, vencível - eu desejo uma convalescença como a minha (porque os demônios da minha mãe são igualmente e tão somente seus).
É preciso convalescer das próprias escolhas, às vezes, mãe; mesmo quando estas tenham sido gestos de amor. Bons e novos dias para nós! E, colegas, me aguardem, porque sou eu mesmo que agora chego, inacabado, socrático e freireano, mera semente em formação, querendo, como escreveu Leila em 1976, "ser mais Leonardo": docemente professor.
terça-feira, 1 de junho de 2021
Foie Gras
As fezes dos pombos ainda me incomodam um pouco, não consigo deixar de pisar e fazer carimbos com elas por onde ando, no terraço do prédio na Rua da Conceição. Preferia a praça, no Rink, mas a todo momento era obrigado a dar explicações sobre as gaiolas com os pombos e o porquê de quando em quando soltar um deles para o ar, num movimento meio bandido.
Daqui do alto, o ruído da cidade, calado pelos metros que nos separam, me ensopa menos a alma. E eu posso me concentrar. E pensar no que há de louco no mundo, e nas vagas de desigualdade que não encontram eco algum nas pessoas.
Abro a gaiola, os pássaros mais agitados que de costume, agarro um dos novos – sempre agressivo, esse aqui, seu bico me prova o sangue – e empurro goela adentro, papo adentro, mensagem adentro, os grãos de veneno de ação rápida.
Meus dedos relaxam, a outra mão fecha as portas da gaiola para que haja um novo dia amanhã, e meu mensageiro voa. O pombo voa, morre aos poucos, alguns minutos, ou muitos, qual bucha de balão caprichosa ao escolher seu lugar de pousar.
Em alguma rua, meu rato-de-asas vai desabar, vomitando, assustando alguém, mostrando à cidade o denominador comum mais cru e direto do que temos de igualdade.
Vejo o flanar das asas, menor, menor, menor, subir, sumir, desço as escadas em busca das ruas, para voltar amanhã e semear lembretes, semear a morte pela cidade que nada ouve, nada vê.
Leonardo Nahoum, 19 de março de 2010.
--------------------------------------------------------------------
Onze anos atrás, quando havia recém-começado a dar expediente como desenhista instrucional no CEDERJ (onde depois conquistei minha licenciatura EAD em Letras), fui fisgado por uma chamada para um concurso de microcontos da ABL. Estava entre casamentos, revivendo alguns hábitos adormecidos (como o de me sentir escritor), e logo sentei para produzir algum texto que me permitisse concorrer. Mal terminei a primeira versão, decidido a reduzir as 250 e poucas palavras para o limite de 140 do edital, descobri que eram na verdade... 140 caracteres. Um tweet. Por isso, o texto agora não mais inédito ficou assim, desse tamanho mesmo. (escrevi um conto-tweet pra concorrer, chamado A4, mas ele fica para outra postagem futura).
O plano é que Foie Gras (gosto dele, já viram...) faça parte, no futuro, de um volume de narrativas curtas chamado Amores intestinos. Para os colegas professores, o título (e o texto) podem servir bastante bem, penso, para uma aula sobre Intertextualidade.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
Aula de Metalurgia
- Agora, fica olhando pra ver se não vem ninguém.
Paulinho era um ano mais velho que eu, mas estudamos na mesma sala até ele perder de ano e ter que mudar de escola para uma que aceitasse alunos em "dependência". Mesmo assim, nos víamos sempre perto da casa dele, em Icaraí, percorrendo as ruas em nossas rotinas de pequenos infratores urbanos: agachados junto às rodas pretas dos carros, procurávamos o ponto certo para enfiar a chave de fenda que faria soltar os pequenos pesos de chumbo do balanceamento; matéria-prima para ser derretida na cozinha do apartamento de classe média na beira da praia, nossas primeiras aventuras pelo mundo da metalurgia, dos moldes de durepoxi e das fichas falsas de fliperama.
- Conseguiu? - perguntei quase num sussurro, o pescoço jogando os olhos ora para a esquerda, ora para a direita, tentando adivinhar em alguma das pessoas que passavam o perigo-mor de um dono de carro ou um adulto indignado com as nossas molecagens.
- Tá quase, tá quase... Presta atenção aí.
A fita adesiva com as bolotas de chumbo de soltou, finalmente, e não perdemos mais um segundo abaixados. Ganhamos a rua, transformando a adrenalina em velocidade, parceiros que éramos de um crime que parecia nos fazer quase a mesma pessoa de onze anos, a mesma sombra de braços e pernas misturadas que corria e trançava risadas e pequenos comentários: agora, entrar no prédio, derreter o chumbo, derramar com cuidado no molde, deixar esfriar, soltar a ficha, repetir até acabar o chumbo.
A tarde parecia encomendar chuva, o céu escurecia os prédios da cidade onde, talvez em outros dias, houvessem passado outras parelhas de amigos perfeitos como nós: potros falantes em um carrossel que o tempo não apaga, quando muito enferruja e espaça os galopes.
Mas não íamos mais a parques; nossas horas vagabundas agora eram com esses caça-níqueis modernos, de telas coloridas e bolas cromadas enlouquecidas, uma barafunda sonora e visual no meio da qual trocávamos olhares ternos, sem saber que eram ternos, adivinhando, sem realmente entender, que aquelas tardes de melhores amigos coroariam nossa infância. Pequenos furtos, fichas de flíper falsas e tudo.
Rio de Janeiro, 15 de maio de 2014.
(para Marcelo 'Konga' Xavier, o "Paulinho", e para todos os amigos que não se afastam nunca - são apenas a distância dos galopes espaçados)
-------------------------------------------------------
Escrevi esse pequeno conto-crônica como exercício para uma das aulas da Oficina de Literatura Infantil e Juvenil que fiz na PUC em 2014, oferecida pelas professoras Márcia Cristina Silva e Ana Letícia Leal. Como tenho aproveitado a pandemia para dar alguma organização a (literalmente) décadas de todo tipo de papel, o textinho apareceu e... achei que merecia o blog (ou o blog o merecia). Publicado está.
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
Melville, Poe, Soveral: buscando a própria identidade na multidão (em um mundo de maricas)
Poe foi o grande expoente e modelo literário para Soveral; era o seu herói. Ele segue despertando paixões e vive um momento de renovada popularidade, por conta principalmente de seu papel no delineamento da chamada ficção detetivesca, no despertar ocidental para o lugar da cidade em nosso imaginário e ainda para o próprio erguer-se da literatura de seu país natal. Tenho muito de Poe ainda para descobrir e ler, e trabalhar nesse livro sobre sua poesia será um crescimento para mim interessante. Melville é outro de que gosto bastante, e a quem preciso retornar. Nos meus vinte anos, li com prazer e vagar uma edição de Moby Dick da Francisco Alves (penso em voltar ao livro agora releendo-o na versão da Cosac Naify). Nesse último semestre de faculdade de Letras, pude comparar os dois autores em muito boas páginas da disciplina de Literatura Comparada, tocada exemplar e apaixonadamente pela professora Anna Faedrich (UFF) e pela tutora Claudine Varela.
Antes de continuar, cabe dizer que mais do que nunca a literatura é necessária. Bernardo Carvalho recentemente escreveu sobre isso, atacando as medievalidades do governo Bolsonaro e frisando que, longe de secundária/os, a arte, os livros, o literário, se impõe/m como força humanizadora em meio a torrentes de pura destruição. Dias depois da declaração do presidente eleito brasileiro, de que o país deveria deixar de ser formado por "maricas" e enfrentar (???) o coronavírus, circulou pelas redes um vídeo curto, do carnavalesco Milton Cunha, colocando em palavras toda a devida indignação necessária ante tamanha estupidez. Recomendo fortemente que o assistam.
Enquanto repiques da pandemia se chocam com dizeres brasileiros abomináveis e com o estremecimento Trumpiano da democracia mais poderosa do mundo em uma pororoca que parece tudo levar em seu caminho, a literatura (e o que em torno dela existe de busca identitária individual e coletiva) grita sua relevância.
Pensando novamente nos EUA que nos brindaram com o veneno Donald Trump, mas também com os bálsamos Melville e Poe... É preciso olhar para o que chamamos agora de literatura norte-americana (e seus primórdios) tendo em mente a noção de literatura tardia; como no Brasil ou como na Rússia, é apenas no século XIX para o XX que começamos a poder falar de uma literatura estadunidense de língua inglesa, reflexo cultural amadurecido de pouco em pouco ante a independência política do final do 1700s. Ao destacar como alguns de seus expoentes as figuras de Edgar Allan Poe e Herman Melville, Faedrich e Figueiredo aproximam os autores em parte pelo que de modernizador eles propuseram com suas obras: os séculos modernos são os séculos do olhar, são os séculos do ser humano visual, transformado cognitivamente e perceptivamente pelas transformações tecnológicas que já vinham plasmando nosso modo de viver desde antes da Revolução Industrial. No mundo eminentemente urbano agora, privilegiamos mais do que tudo o visual, o imagético, o descortinável. Poe, diz Faedrich, é “reconhecido por ser o pai da literatura policial, [com uma obra na qual] a questão do olhar é fundamental (...), nesse sentido se aproxim[ando] de Melville e seu capitão Ahab, cuja obsessão o impede de ver” (FAEDRICH et al, 2016,, p. 254). Embora menos canônico que Melville, que inscreveu algumas de suas prosas, como Moby Dick, entre as obras máximas do romance ocidental de todos os tempos, Poe tornou-se ainda assim uma figura fundamental para a literatura norte-americana, mas também a (contemporânea) mundial pelo seu profundo e profícuo diálogo com a cidade, com a urbe que se impunha como o novo locus humano por excelência. Ao fundar (pra valer) a literatura policial com os contos de seu Monsieur Dupin e ao penetrar na psicologia dos flâneurs e das massas em textos como “O homem na multidão”, Poe aproxima-se da questão identitária (norte-americana, mas não só) tanto quanto Melville em sua busca marítima da verdade metaforizada em baleia branca.
Como todo grande livro, Moby Dick comporta diversos níveis de leitura, entre eles o aventuresco, o que justifica sua escolha para inúmeras adaptações infantojuvenis desde seu lançamento. Sua fruição plena é um grande mergulho nos arrebatamentos de que a alma humana é capaz: ira, vingança, obsessão, destino, comprometimento. Ahab, o icônico capitão a quem a baleia devorou uma perna, é tão incapaz de se comportar de outro maneira como Bartleby é de se conformar com tarefas que “preferiria não fazer” (como diz inúmeras vezes ao longo da noveleta que leva seu nome). Ahab não consegue se desviar de seu destino, como Bartleby não consegue atender às demandas da sociedade que dele solicita ao menos alguma explicação; corações em enigma, indecifráveis até mesmo para Dupin ou Sherlock Holmes – e por isso tão atuais, tão clássicos, tão instigantes e ainda tão cheios de voz para nos falar.Em seu livro A alma encantadora das ruas, no texto que abre o volume, João do Rio discorre apaixonadamente sobre a rua, sobre como ela molda o homem moderno, como diz de seu caráter e vida e coração. Para João do Rio, flanar é (des)ocupação artística obrigatória, sem a qual é impossível conhecer de verdade um povo, uma cidade. Mas o homem precisa tornar-se relevante para o mundo – seja por seu apreço por enigmas, seja por sua resistência bartlebyniana, seja por perseguir baleias brancas; ele precisa de uma identidade (como as literaturas). Como diz o escritor, “o homem, no desejo de ganhar a vida com mais abundância ou maior celebridade, precisa interessar à rua” (RIO, 1997, p. 74, grifo nosso), ao mundo, à sociedade, à vida. Afinal, seja ele um Moby Dick ou um Quixote, seja ele um caso de Dupin ou de um Holmes, “esse formidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos e da fantasia dos Gaboriau que somos todos nós” (RIO, 1997, p. 75) deve ser (Modernamente) único, idiossincrático, irrepetível – só então... só então... Humano.
Que neste domingo, dia 15 de novembro, este país de maricas vá às ruas, encantado-encantador, e recomece nas urnas a resgatar sua própria alma (plantando algo ainda maior para 2022), como fizeram há pouco os norte-americanos; como já escreviam e inspiravam, por seu talento e beleza, não Trump (ou seus fãs patetas locais), mas Melville e Poe.REFERÊNCIAS
FAEDRICH, Anna; FIGUEIREDO, Eurídice. Literatura Comparada: volume único. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2016.
RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.







