terça-feira, 1 de junho de 2021

Foie Gras

As fezes dos pombos ainda me incomodam um pouco, não consigo deixar de pisar e fazer carimbos com elas por onde ando, no terraço do prédio na Rua da Conceição. Preferia a praça, no Rink, mas a todo momento era obrigado a dar explicações sobre as gaiolas com os pombos e o porquê de quando em quando soltar um deles para o ar, num movimento meio bandido.

Daqui do alto, o ruído da cidade, calado pelos metros que nos separam, me ensopa menos a alma. E eu posso me concentrar. E pensar no que há de louco no mundo, e nas vagas de desigualdade que não encontram eco algum nas pessoas.



Abro a gaiola, os pássaros mais agitados que de costume, agarro um dos novos – sempre agressivo, esse aqui, seu bico me prova o sangue – e empurro goela adentro, papo adentro, mensagem adentro, os  grãos de veneno de ação rápida.

Meus dedos relaxam, a outra mão fecha as portas da gaiola para que haja um novo dia amanhã, e meu mensageiro voa. O pombo voa, morre aos poucos, alguns minutos, ou muitos, qual bucha de balão caprichosa ao escolher seu lugar de pousar.

Em alguma rua, meu rato-de-asas vai desabar, vomitando, assustando alguém, mostrando à cidade o denominador comum mais cru e direto do que temos de igualdade.

Vejo o flanar das asas, menor, menor, menor, subir, sumir, desço as escadas em busca das ruas, para voltar amanhã e semear lembretes, semear a morte pela cidade que nada ouve, nada vê. 


Leonardo Nahoum, 19 de março de 2010. 


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Onze anos atrás, quando havia recém-começado a dar expediente como desenhista instrucional no CEDERJ (onde depois conquistei minha licenciatura EAD em Letras), fui fisgado por uma chamada para um concurso de microcontos da ABL. Estava entre casamentos, revivendo alguns hábitos adormecidos (como o de me sentir escritor), e logo sentei para produzir algum texto que me permitisse concorrer. Mal terminei a primeira versão, decidido a reduzir as 250 e poucas palavras para o limite de 140 do edital, descobri que eram na verdade... 140 caracteres. Um tweet. Por isso, o texto agora não mais inédito ficou assim, desse tamanho mesmo. (escrevi um conto-tweet pra concorrer, chamado A4, mas ele fica para outra postagem futura). 

O plano é que Foie Gras (gosto dele, já viram...) faça parte, no futuro, de um volume de narrativas curtas chamado Amores intestinos. Para os colegas professores, o título (e o texto) podem servir bastante bem, penso, para uma aula sobre Intertextualidade. 


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Aula de Metalurgia

Agora, fica olhando pra ver se não vem ninguém.

Paulinho era um ano mais velho que eu, mas estudamos na mesma sala até ele perder de ano e ter que mudar de escola para uma que aceitasse alunos em "dependência". Mesmo assim, nos víamos sempre perto da casa dele, em Icaraí, percorrendo as ruas em nossas rotinas de pequenos infratores urbanos: agachados junto às rodas pretas dos carros, procurávamos o ponto certo para enfiar a chave de fenda que faria soltar os pequenos pesos de chumbo do balanceamento; matéria-prima para ser derretida na cozinha do apartamento de classe média na beira da praia, nossas primeiras aventuras pelo mundo da metalurgia, dos moldes de durepoxi e das fichas falsas de fliperama.



- Conseguiu? - perguntei quase num sussurro, o pescoço jogando os olhos ora para a esquerda, ora para a direita, tentando adivinhar em alguma das pessoas que passavam o perigo-mor de um dono de carro ou um adulto indignado com as nossas molecagens.

- Tá quase, tá quase... Presta atenção aí. 

A fita adesiva com as bolotas de chumbo de soltou, finalmente, e não perdemos mais um segundo abaixados. Ganhamos a rua, transformando a adrenalina em velocidade, parceiros que éramos de um crime que parecia nos fazer quase a mesma pessoa de onze anos, a mesma sombra de braços e pernas misturadas que corria e trançava risadas e pequenos comentários: agora, entrar no prédio, derreter o chumbo, derramar com cuidado no molde, deixar esfriar, soltar a ficha, repetir até acabar o chumbo.



A tarde parecia encomendar chuva, o céu escurecia os prédios da cidade onde, talvez em outros dias, houvessem passado outras parelhas de amigos perfeitos como nós: potros falantes em um carrossel que o tempo não apaga, quando muito enferruja e espaça os galopes.

Mas não íamos mais a parques; nossas horas vagabundas agora eram com esses caça-níqueis modernos, de telas coloridas e bolas cromadas enlouquecidas, uma barafunda sonora e visual no meio da qual trocávamos olhares ternos, sem saber que eram ternos, adivinhando, sem realmente entender, que aquelas tardes de melhores amigos coroariam nossa infância. Pequenos furtos, fichas de flíper falsas e tudo.


Rio de Janeiro, 15 de maio de 2014. 

(para Marcelo 'Konga' Xavier, o "Paulinho", e para todos os amigos que não se afastam nunca - são apenas a distância dos galopes espaçados)

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Escrevi esse pequeno conto-crônica como exercício para uma das aulas da Oficina de Literatura Infantil e Juvenil que fiz na PUC em 2014, oferecida pelas professoras Márcia Cristina Silva e Ana Letícia Leal. Como tenho aproveitado a pandemia para dar alguma organização a (literalmente) décadas de todo tipo de papel, o textinho apareceu e... achei que merecia o blog (ou o blog o merecia). Publicado está.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Melville, Poe, Soveral: buscando a própria identidade na multidão (em um mundo de maricas)

Faz alguns meses, consegui lançar mais um livro inédito de Hélio do Soveral (A fonte da felicidade), que descobri durante a longa pesquisa de doutorado. Dentre outros projetos que me movem, ultimamente, e que têm me ajudado a equilibrar humor e sanidade em meio a isolamento, crises domésticas, meia idade (fiz 50 em setembro...) e persistente desemprego, está a organização de um volume com a poesia de Edgar Allan Poe traduzida e comentada por Soveral ao longo de toda sua vida. Já recrutei para o barco Dagomir Marquezi, para a orelha; Rubens F. Lucchetti, para o prefácio; e Alexander Meireles da Silva (UFG), para a apresentação.





Poe foi o grande expoente e modelo literário para Soveral; era o seu herói. Ele segue despertando paixões e vive um momento de renovada popularidade, por conta principalmente de seu papel no delineamento da chamada ficção detetivesca, no despertar ocidental para o lugar da cidade em nosso imaginário e ainda para o próprio erguer-se da literatura de seu país natal. Tenho muito de Poe ainda para descobrir e ler, e trabalhar nesse livro sobre sua poesia será um crescimento para mim interessante. Melville é outro de que gosto bastante, e a quem preciso retornar. Nos meus vinte anos, li com prazer e vagar uma edição de Moby Dick da Francisco Alves (penso em voltar ao livro agora releendo-o na versão da Cosac Naify). Nesse último semestre de faculdade de Letras, pude comparar os dois autores em muito boas páginas da disciplina de Literatura Comparada, tocada exemplar e apaixonadamente pela professora Anna Faedrich (UFF) e pela tutora Claudine Varela.



Antes de continuar, cabe dizer que mais do que nunca a literatura é necessária. Bernardo Carvalho recentemente escreveu sobre isso, atacando as medievalidades do governo Bolsonaro e frisando que, longe de secundária/os, a arte, os livros, o literário, se impõe/m como força humanizadora em meio a torrentes de pura destruição. Dias depois da declaração do presidente eleito brasileiro, de que o país deveria deixar de ser formado por "maricas" e enfrentar (???) o coronavírus, circulou pelas redes um vídeo curto, do carnavalesco Milton Cunha, colocando em palavras toda a devida indignação necessária ante tamanha estupidez. Recomendo fortemente que o assistam.

Enquanto repiques da pandemia se chocam com dizeres brasileiros abomináveis e com o estremecimento Trumpiano da democracia mais poderosa do mundo em uma pororoca que parece tudo levar em seu caminho, a literatura (e o que em torno dela existe de busca identitária individual e coletiva) grita sua relevância.


Pensando novamente nos EUA que nos brindaram com o veneno Donald Trump, mas também com os bálsamos Melville e Poe... É preciso olhar para o que chamamos agora de literatura norte-americana (e seus primórdios) tendo em mente a noção de literatura tardia; como no Brasil ou como na Rússia, é apenas no século XIX para o XX que começamos a poder falar de uma literatura estadunidense de língua inglesa, reflexo cultural amadurecido de pouco em pouco ante a independência política do final do 1700s. Ao destacar como alguns de seus expoentes as figuras de Edgar Allan Poe e Herman Melville, Faedrich e Figueiredo aproximam os autores em parte pelo que de modernizador eles propuseram com suas obras: os séculos modernos são os séculos do olhar, são os séculos do ser humano visual, transformado cognitivamente e perceptivamente pelas transformações tecnológicas que já vinham plasmando nosso modo de viver desde antes da Revolução Industrial. No mundo eminentemente urbano agora, privilegiamos mais do que tudo o visual, o imagético, o descortinável. Poe, diz Faedrich, é “reconhecido por ser o pai da literatura policial, [com uma obra na qual] a questão do olhar é fundamental (...), nesse sentido se aproxim[ando] de Melville e seu capitão Ahab, cuja obsessão o impede de ver” (FAEDRICH et al, 2016,, p. 254). Embora menos canônico que Melville, que inscreveu algumas de suas prosas, como Moby Dick, entre as obras máximas do romance ocidental de todos os tempos, Poe tornou-se ainda assim uma figura fundamental para a literatura norte-americana, mas também a (contemporânea) mundial pelo seu profundo e profícuo diálogo com a cidade, com a urbe que se impunha como o novo locus humano por excelência. Ao fundar (pra valer) a literatura policial com os contos de seu Monsieur Dupin e ao penetrar na psicologia dos flâneurs e das massas em textos como “O homem na multidão”, Poe aproxima-se da questão identitária (norte-americana, mas não só) tanto quanto Melville em sua busca marítima da verdade metaforizada em baleia branca.

Como todo grande livro, Moby Dick comporta diversos níveis de leitura, entre eles o aventuresco, o que justifica sua escolha para inúmeras adaptações infantojuvenis desde seu lançamento. Sua fruição plena é um grande mergulho nos arrebatamentos de que a alma humana é capaz: ira, vingança, obsessão, destino, comprometimento. Ahab, o icônico capitão a quem a baleia devorou uma perna, é tão incapaz de se comportar de outro maneira como Bartleby é de se conformar com tarefas que “preferiria não fazer” (como diz inúmeras vezes ao longo da noveleta que leva seu nome). Ahab não consegue se desviar de seu destino, como Bartleby não consegue atender às demandas da sociedade que dele solicita ao menos alguma explicação; corações em enigma, indecifráveis até mesmo para Dupin ou Sherlock Holmes – e por isso tão atuais, tão clássicos, tão instigantes e ainda tão cheios de voz para nos falar.    

Somos todos pequenos barcos no oceano infinito, ou irrelevantes (porque imediatamente substituíveis) Bartlebys em anônimos escritórios, todos homens modernos na imparável multidão de Poe “tenta[ndo] se compreender, buscando o seu lugar na sociedade” (FAEDRICH et al, p. 268). A semelhança das figuras todas citadas (de Melville, de Poe), reunidas em torno desse vaguear humano, lembra mesmo o flâneur de Charles Baudelaire, “o detetive da cidade, percorrendo a cidade das transformações urbanas que ocorrem no século XIX” (FAEDRICH et al, p. 269) em busca tanto do anonimato e da segurança das multidões quanto da identidade que (qual mítica baleia branca) sonha lá encontrar.

Em seu livro A alma encantadora das ruas, no texto que abre o volume, João do Rio discorre apaixonadamente sobre a rua, sobre como ela molda o homem moderno, como diz de seu caráter e vida e coração. Para João do Rio, flanar é (des)ocupação artística obrigatória, sem a qual é impossível conhecer de verdade um povo, uma cidade. Mas o homem precisa tornar-se relevante para o mundo – seja por seu apreço por enigmas, seja por sua resistência bartlebyniana, seja por perseguir baleias brancas; ele precisa de uma identidade (como as literaturas). Como diz o escritor, “o homem, no desejo de ganhar a vida com mais abundância ou maior celebridade, precisa interessar à rua” (RIO, 1997, p. 74, grifo nosso), ao mundo, à sociedade, à vida. Afinal, seja ele um Moby Dick ou um Quixote, seja ele um caso de Dupin ou de um Holmes, “esse formidável folhetim-romance permanente, composto de verdades, mentiras, lisonjas, insultos e da fantasia dos Gaboriau que somos todos nós” (RIO, 1997, p. 75) deve ser (Modernamente) único, idiossincrático, irrepetível – só então... só então... Humano.

Que neste domingo, dia 15 de novembro, este país de maricas vá às ruas, encantado-encantador, e recomece nas urnas a resgatar sua própria alma (plantando algo ainda maior para 2022), como fizeram há pouco os norte-americanos; como já escreviam e inspiravam, por seu talento e beleza, não Trump (ou seus fãs patetas locais), mas Melville e Poe.



REFERÊNCIAS

FAEDRICH, Anna; FIGUEIREDO, Eurídice. Literatura Comparada: volume único. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2016.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Paternidade e a irrelevância súbita da própria vida (parte 3)

Está aflito com os arbores da vida adulta, meu filho do meio "emprestado". Desde que o conheci, quase dezessete anos atrás, rugas tensas sempre foram a principal marca de expressão em seu rosto arredio de dois anos e meio e de agora quase dezenove. A proximidade da obrigatoriedade imposta por tomadas de caminho tem feito com que meu menino "emprestado" seja visitado por enxaquecas, pequenas crises de ansiedade e mal-estares próprios do "coming of age": pra que lado vou? serei bom de verdade fazendo alguma coisa? conseguirei encher meu pai de orgulho e minha mãe também? que faculdade fazer? que vida profissional abraçar? que projeto de mim serei digno de ser?



Quando eu estava sai-não-sai de uma (primeira) depressão, nos idos de 1997, uma das bizarrices que coloriram aqueles dramáticos dias foi uma visita a uma numeróloga (essas coisas que a gente faz sem acreditar, deixando margem pro "vai-que...; vai-que te ajuda a se conhecer melhor"). Eu estava ainda em meu primeiro casamento e alguns anos distante da paternidade, mas a moça cravou, esotérica mas cheia de conhecimento e certeza de causa: "estou vendo três crianças fazendo parte da sua vida". Meus filhos (de sangue) Henrique vieram tempos depois, com diferença de seis anos entre eles. Jojô, Jônatas, chegou no meio, fruto do primeiro casamento de minha esposa, e devo dizer que fui talvez algo ardiloso quando de nosso primeiro encontro, talvez pela culpa que sentia por ter tido parte no lar desfeito que era agora sua casa: comprei meu menino "emprestado" com um bombom - um Serenata de Amor ou um Sonho de Valsa-, que ele muito desconfiado não recusou, e de lá pra cá celebro num canto muito meu do coração todo sorriso que recebo dele, toda manifestação de amor mais física que conseguimos trocar. Porque elas sempre foram um desafio muito difícil pra mim.

Semanas atrás, vendo um dos episódios da série "For all mankind", da Apple (que basicamente descreve uma linha temporal alternativa na qual os soviéticos chegaram primeiro à Lua), fiquei pensativo ao ver e rever a cena na qual o astronauta interpretado por Joel Kinnaman (de "The Killing" e "Altered Carbon") está na calçada de sua casa americana de classe média dedicando alguns parcos minutos de atenção ao filho que pouco o vê. Aulas de bicicleta. O pináculo do heroísmo americano grita com o pequeno, é rude ao avaliar suas quedas que se repetem, toda vez que o pai impulsiona a bicicleta sem qualquer outro tipo de apoio, sem vir correndo atrás, com a paciência de quem deveria esperar asas fortes de sua cria antes de qualquer empurrão para fora do ninho. Lembrei, claro, de meu próprio pai me ensinando a andar de bicicleta e como eu me recordo dele segurando a Monark pela parte de trás, conforme eu me ajeitava, ouvindo sempre sua voz firme e encorajante, até que o equilíbrio "acontecia" e, surpreso, eu olhava para trás para constatar que meu pai, afinal, me soltara dizendo (sem dizer): "Vai...".

Tudo isso para, claro, voltar a Jojô e a todo conflito que sempre foi para mim equilibrar meus desejos de oferecer carinho e por outro lado respeitar meus limites muitos consolidados de nunca querer tomar o lugar do pai dele, presença constante e absoluta (por exemplo) em todos os seus finais de semana desde a separação. Conforme ele ia crescendo e o "Tio Léo" se tornava uma parte não-negligenciável de sua vida afetiva, de sua formação (para o bem ou para o mal), íamos, eu sinto, tateando essa zona de penumbra na qual nosso amor por vezes podia se manifestar - mas de cada abraço que consegui enrolar nele, de cada beijo que logrei pespegar em seu rosto, dez outros ficaram pelo caminho, tolhidos por certo respeito a um outro papel (o de pai "pai") e a um outro lugar e tempo. E respeito à voz do sangue, também. Tenho, sempre tive, muitas dúvidas sobre até que ponto deve-se refrear apoio, afeto, mesmo em casos assim, quando um padrasto não quer confundir uma criança querida sobre quem é seu pai. De qualquer forma, meu menino "emprestado" é meu terceiro tesouro e, mesmo envergonhado por uma economia de afagos e carinhos que nunca fez jus ao meu amor por ele, digo aqui para sua leitura que não consigo imaginar um mundo onde nossas vidas não sejam assim, emboladas, na presença dos casamentos e na relativa distância das separações.

Enquanto me preparo - com alegria - para terminar minha licenciatura em Letras e começar uma nova carreira como professor de Língua Portuguesa e Literatura, são dele os mais marcantes exemplos iniciais que pretendo levar pra minha verde e crua prática: o de quando ele dizia "quatros", extrapolando como toda criança linguisticamente brilhante o fonema "s" marcador de plural que ele já identificara em "dois" e "três", e que prova o como já somos mestres no idioma que falamos; e o de quando sua mãe, sem tempo para dar uma explicação mais demorada sobre os elementos do cabeçalho de uma tarefa da escola, disse a ele simplesmente que o "ano" era sempre daquele jeito, o que fez com meu menino "emprestado", na série seguinte, tascasse o ano anterior, de maneira automática, em todas as datas que escrevia.

Hoje assistiremos a um desenho juntos, a convite dele (coisa rara), e espero que haja espaço, entre uma e outro cena, para um afago, quem sabe um cafuné meio sem jeito meu. E que ele continue, nas brechas que cabem a mim, a dividir vezenquanto comigo suas dúvidas, seus anseios ainda mal concebidos, seus choros e risadas, que seguem tão luminosas quanto nos distantes dias em que seu melhor amigo era um robô.





quinta-feira, 9 de abril de 2020

Paternidade e a irrelevância súbita da própria vida (parte 2)

O assunto "filhos" parece estar em alta. Seja porque estamos sendo obrigados a uma convivência familiar mais intensa com os pequenos (ou nem tão pequenos), seja porque as mortes pandêmicas extemporâneas nos fazem refletir mais sobre nossa própria existência fugaz - uma espécie de "Memento mori" que as GloboNews da vida e nossa conectividade 24x7 repetem incessantemente, com tom ora alarmista, ora pedagógico, ora necessário, ora apenas um pouco demais -, não são poucos os cronistas que têm visitado o tema nos últimos dias. Aliás, embora termo comum de dois gêneros, tenho apreciado bem mais AS cronistas que tenho lido nos últimos anos do que seus colegas de cromossomos mais variados: Tati Bernardi, em réplica a si mesma depois de meio que vomitar verdades sobre o duro (e nada róseo) viver-em-família, deu um belo depoimento sobre sua opção pela maternidade (ainda que em meio a muitas dúvidas), no texto "Tenha filho"; já Mariliz Pereira Jorge, às voltas com suas próprias angústias pessoais e a coragem que diz não servir sempre pra tudo, pondera em "O que fiz da minha vida?" se ter escolhido não ser mãe foi mesmo a trajetória mais acertada.

Fato é que, ao elegermos a vinda dos filhos - e aqui me lembro de uma professora de mestrado e doutorado na UFF, Beth Chaves, comentando os dizeres de uma amiga sua sobre o que mais a amedrontava na questão: a irreversibilidade da coisa; seu caráter "sem volta" -, rejeitamos todo e qualquer recall, toda e qualquer possibilidade de que nossa vida tenha a mesma relevância de antes daquele primeiro choro inaugural, daquela primeira tomada de colo, daquele processo de "desempoderamento" que o sangue do nosso sangue traz.

Sei que muito da sedução da paternidade/maternidade, para muitas pessoas, reside numa fantasia do filho ou da filha como continuação de si mesmo, como uma instância biológica de repetição que será capaz de fazer melhor o que você já fez, de consertar os erros em que você caiu, de satisfazer desejos e aproveitar oportunidades que você desperdiçou, de conseguir aumentar o tamanho do roçado ou do capital da empresa ou da clientela do escritório... Não à toa, a sabedoria popular parece traduzir tanto essa nossa fissura inconsciente (ou talvez sua porção genética nem a faça tão assim) quanto o determinismo que, muito antes de Gregor Mendel, nós como raça já sabíamos operar entre nós, animais: "filho de peixe, peixinho é"; "an apple doesn't fall too far from the tree".

(e aqui vou me privar de fazer comentários sobre política contemporânea e dinastias à brasileira, embora a língua e os dedos cocem que só)

Cervantes, já no primeiro parágrafo de seu "Quixote" (sim, como muitos de vocês, estou aproveitando a quarentena para tentar colocar antigos projetos em prática: ler finalmente a história do fidalgo da Mancha é um deles), segue por esse tom ao pedir desculpas logo de saída ao leitor dizendo que "gostaria que este livro, como filho da inteligência, fosse o mais galhardo e o mais arguto que se pudesse imaginar. Mas não consegui contrariar a ordem da natureza, em que cada coisa gera seu semelhante" (página 41 da tradução de Ernani Ssó, em edição de 2012 da Penguin Classics / Companhia das Letras; os grifos são meus). Como todos os pais (e como Cervantes com seu livro), sempre desejei que o bem fosse a estação com mais dias no calendário dos meus três meninos; mas nunca foi sua semelhança com meus trejeitos, com meus contornos ou com meu passado o que me encantava em nosso romance-de-cavalaria-real a oito mãos. O que sempre me encantou mais foi o que eles tinham de só seu, o que os fazia criaturas únicas e jamais por essa terra antes imaginadas.

A novidade que cada filho traz não só à existência dos pais como ao universo em seu todo é que me parece ser o verdadeiro milagre, a verdadeira bênção de se fazer a opção do "tê-los para sabê-los". O indecifrável que há em cada um deles, o potencial indevassável de cada uma de suas vidas em processo é o que verdadeiramente traz esperança e alento ao mundo. Mais que nunca, são eles o futuro (mas um futuro em aberto, ainda velado e por isso instigante); nossas crianças.

Hoje faz aniversário meu filho Henrique, meu mais velho de três. Duas décadas me jogando na cara quantas solas de sapato eu já gastei, quantos dias eu já vivi, quanto ainda me falta para aprender. Com o muito que nos amamos, nunca conseguimos muita trégua para nossa convivência, com os sacolejos que minha separação da mãe dele nos fez (a todos) passar. Conforme ele tem crescido e se tornado "his own person" (recordando aqui um e-mail antigo que recebi do guitarrista Nick Barrett, do grupo inglês Pendragon), temos procurado construir mais pontes que abismos entre nós. Por exemplo, mandamos músicas novas um para o outro, tentando fazer melhor que os algoritmos de Spotifys e Youtubes da vida; sugerimos leituras, filmes; cultivamos conversas. No meu caso, procuro ser para ele alento "fingindo" que sei mais dos mistérios da vida, quando ele precisa de um porto seguro pra chamar de seu.

Henrique, ao nascer, foi um grande ato de fé sussurrado a mim (e à mãe dele) pelo mundo. Fé em que tudo se transforma, fé em que os filhos poderão porque serão; fé em que tudo passa. E que isso é bom.

No bairro onde moro, em Maricá, vivemos numa quase roça, onde há muita gente humilde e casas bem pobrinhas, onde o susto que se está vivendo pela atual emergência pública não deve ser pouca coisa. Ainda assim, as pessoas têm coragem e humanidade para impulsionar as outras pessoas, dar seu próprio testemunho de força e resiliência - como nessa porta que fotografei, em uma saída essa semana pra comprar pão.





Fé, gente (em Deus, na ciência, nos filhos, no irrepetível da vida...). Como escreveu minha anônima vizinha, tudo vai passar.

Pra terminar esse longo texto, queria deixar com vocês um poema escrito em 2002 para Henrique, quando eu estava em turnê com a banda Focus no Chile, e um áudio com a canção "Já vai tarde", do Phill Veras, interpretada pelo meu filhote, num desses dias em que estávamos procurando artistas que nos lembrassem o Los Hermanos.

Fiquem todos bem!

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Viñas da ira boa


Meu filho Henrique, sabotador de outras alegrias.

Meu amor Henrique, embotador de todos os demais prazeres.

Meu lorde Henrique, destruidor de cada um dos espaços de tranquilidade e desapego;de todas as horas em que eu me achava livre, sem dever nada a ninguém.

Meu captor Henrique, que cresceu olhos para me vigiar até quando dorme, através dos meus.

Meu encanto Henrique, que me tornou obsoleto e defensivo, despedaçado por tudo aquilo que não me cheira a teu; vinhos chilenos, paisagens de Viña ou amizades holandesas.

Leonardo Nahoum (Viña del Mar, duas da manhã de primeiro de novembro de 2002)

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Henrique Barreira interpretando Phill Veras

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Paternidade e a irrelevância súbita da própria vida (parte 1)

Minha primeira "cara" foi de biólogo; fui projeto disso nos meus primeiros anos de adulto-gente, quando comecei a fazer no Fundão, em 1988, três ou quatro semestres que me marcaram pra sempre, seja porque vivi ali amores (sofridos, mornos, com direito a filhos futuros e a revivals-repetição), seja porque ali conheci primeiro um mundo maior do que a provinciana Niterói, seja porque naqueles corredores fiz amizades que ainda perseveram, mesmo que predominantemente pautadas pelos grupos virtuais da vida. Por conta dessa primeira "cara", tive cedo contato com algum aprofundamento de leituras sobre evolução, darwinismo, etc., e daí me vieram brincadeiras, quando fui pai pela primeira vez, em 2000, de falar que "eu agora estava obsoleto para o universo; já havia passado meus genes pra frente - já podia morrer".

Embora me seja algo antipática a questão do lugar de fala como alijador da legitimidade dos outros para discutir o que quer que seja, não sou cego, porém, à sua relevância para a análise das posições e dos discursos. Da mesma forma que penso, por exemplo, que a homossexualidade de um autor deve ser, sim, levada em conta pelo pesquisador que se ocupa dos seus textos (como fiz, na minha tese, com o trabalho de Ganymédes José), acredito também que a paternidade (ou maternidade, não importa; a demiurgia da reprodução), quando chega, proporciona à pessoa um lugar de fala insubstituível, de ordem qualitativa. Ele não é pretexto nem justificativa, porém (quero deixar claro isso), para fazer das pessoas melhores educadores, melhores professores, melhores nada; apenas mudamos por dentro, passamos a entender o mundo por outro ângulo - é como ler Clarice Lispector antes de se apaixonar de verdade e depois.

Pedrinho, meu caçula, faz 14 anos hoje. Fruto muito querido do meu segundo casamento, ele já me fez, como o irmão mais velho, me sentir ultrapassado, superado, daquela forma que os filhos fazem sem que a gente se sinta ameaçado. Uma hora estamos lhes trocando fraldas, ensinando seus primeiros equilíbrios, na outra estamos vendo aqueles seres desenharem melhor que a gente, falarem uma língua desconhecida para nós, terem mais inteligência emocional, afirmar-nos suas individualidades, enfim.



O dia hoje é dele, Pedrusco, ele que, pequerrucho, já me surpreendia, aos sete anos, com a seguinte dedução, brotada no meio de uma conversa com o irmão do meio, Jônatas: "Todo mundo é estrangeiro pra todo mundo".

Aqui vão alguns poemas, então (meus e dele), devidamente desquarentenados por essa publicação, para celebrar esse dia que será de bolo de chocolate caseiro, fondue de queijo a quatro, chamadas virtuais e amor-perseverança.

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SOU UM LEÃO

Não sei voar ou cantar bem.
Mas sou alguém.
Posso não ser amigo de ninguém. Mas sou alguém.
Sendo eu mesmo, ninguém me derrota, ninguém me bota no chão, não sou um rato, sou um leão.

Não tenho medo de nada, pois nada me acertará, nem uma onda de tristeza, nem uma avalanche de escuridão.

Nunca caio, se eu caio, me levanto. Tudo que falam não me importa, sejam suas palavras xingamentos ou críticas, uma palavra ruim, nada vai ser o meu fim.

Pra mim, o fim não existe, só a continuação, sou um tigre, sou um leão.

Pedro Ordoñez Pache de Faria, 19 de maio de 2016

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INSILÊNCIA

(filho é tão bom, mas dói)

(dói por doer)

(só por ser o que é)

(nem é o susto de vocês, que é um coração que não bate mais por dentro e por isso apavora, só por estar fora)

(mas é semente insilente, um dia quente, de latejo-gozo, um jorro que virou gente)

(e a gente, quando sente, vê que a lida de repente nunca mais é só presente)

(é antes os dias deles que a gente perde, os minutos cada vez mais ausentes, os amores que nos tomam a frente)

(filhos vêm para roubar a vida, dando em troca tudo... e a gente nem sente, nem sente...)

Leonardo Nahoum, maio de 2010

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BEM-SONHADO

Dormiu, meu amor de 4 anos...
Dormiu sereno, seguro, amado, quente e calmo...

Dormiu debaixo do meu teto, da minha dor e alma, debaixo das minhas asas zelosas e atentas, do meu riso metade dele, metade do irmão.

Dormiu pra acordar ao meu redor amanhã, pra me assombrar com uma riqueza que nunca tem cara de repetição.

Dormiu meu filho, dormiu e sonha...
...
...e sonha o Bem.

Leonardo Nahoum 22 de maio de 2010

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Rondônia 451

O romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, tem me acompanhado desde a infância exercendo sobre mim certo fascínio que muito provavelmente se explica pelo meu amor aos livros e pelo horror que me causa a ideia de sua destruição deliberada. Para exemplificar melhor minha relação com essa linda invenção humana do universo da escrita, nada melhor do que esse pequeno texto que minha esposa, em 2018, escreveu sobre mim, às vésperas do meu aniversário:


Distopia publicada em 1953 que descreve uma sociedade de livros proscritos na qual "bombeiros" (firemen...) queimam obras, perseguem criminosos-de-pensamento-e-opinião e onde a resistência deve se dar, artesanalmente, pela resiliência da memória (as pessoas, para salvaguardar o legado humano literário, começam a decorar trabalhos inteiros, colossos como Moby Dick, se responsabilizando pela sua preservação em meio àquele verdadeiro holocausto), Fahrenheit 451 me inspirou, décadas atrás, a começar uma noveleta de ficção científica deixada pela metade, de título "451 soldiers" (à qual eu talvez retorne um dia), e plantou em mim o interesse pelo mistério dos livros perdidos, dos manuscritos extraviados e, em última análise, pelas violências da censura.

O título desta postagem, obviamente, é uma referência à denúncia que correu todos os noticiários ontem envolvendo o memorando da Secretaria de Educação de Rondônia, às suas coordenadorias regionais, no qual se ordenava o recolhimento de livros considerados de "conteúdos inadequados às crianças e adolescentes". E, antes que me acusem de exagero, já que não houve (ainda...) nenhum Bücherverbrennung (termo alemão que ficou associado à queima nazista de livros promovida na Alemanha entre 10 de maio e 21 de junho de 1933), ressalto que o mais importante em "Fahrenheit 451" não é tanto a imagem das piras de papel que tem suas almas transformadas em cinzas, mas sim o silenciamento, o fazer desaparecer... e isso se dá tanto com a queima quanto com o encaixotamento rondoniense (segundo a reportagem inaugural, do Estado de São Paulo, os livros condenados pelo Secretário de Estado da Educação de Rondônia, Suamy Vivecananda Lacerda de Abreu, já estavam separados dentro de caixas, em algumas escolas, à espera da coleta).

Quanto retomei pra valer minha vida acadêmica, em 2012, com o mestrado em estudos literários, levei comigo, como projeto de pesquisa, uma análise sobre a série "Inspetora", de Ganymédes José, coleção publicada no Rio entre 1974 e 1988. Além do interesse por literatura infantil (e popular) em geral, motivado em parte pelo fato de meu filho caçula estar à época se alfabetizando, havia também,como elemento fortemente instigador, a descoberta que eu fizera de um livro da coleção aparentemente não publicado ainda lá em 1974. O título aparecia em listas ao final de alguns volumes, mas depois sumiu, nunca veio a público. Pensei logo, claro, que poderia haver ali naquela pena alguma galinha inteira, como se diz, e coloquei em meu projeto a hipótese de (auto)censura, isso ainda sem saber do que se tratava o tal título suprimido (o que deveria ter sido o  numa série que teve outros 30 e poucos episódios...) e se seria possível ainda encontrar seus originais. Acabei localizando o tal manuscrito perdido, sua leitura me deixou convicto, sim, que a autocensura de fato ocorrera (o original em questão chamava-se O Caso do Rei da Casa Preta e falo sobre ele tanto em minha dissertação quanto em minha tese de doutorado), e toda a história avivou ainda mais em mim o interesse por esses cerceamentos de expressão e de circulação de ideias. No caso brasileiro, especificamente, no que se refere ao período da ditadura militar, nos mecanismos de censura indireta, provocada pelo medo de represálias econômicas ou penais.

Lendo a primeira aula da disciplina "Literatura Portuguesa I", fui parar nas primeiras páginas do texto "Aula", de Barthes, e não posso deixar de relacioná-las a todo esse episódio e à todo o arcabouço conceitual envolvendo Infância, Literatura Infantojuvenil e a tutela que tão naturalmente nos arrogamos de exercer sobre o que deve ou não ser lido pelos pequenos, sobre a linha que coloca "adequado" desse lado e "inadequado" do outro. Refletindo sobre os mecanismos do Poder na sociedade, sobre a ubiquidade de sua influência e sobre a inescapabilidade de sua presença em todas as existências, subjetividades e relações, Barthes conclui que isso se dá porque não é possível ao homem existir fora da Linguagem; e a Linguagem, por mais que sirva (como ele mesmo diz) aos desvios e às transgressões (quando se encarna como Literatura), é, por natureza, mecanismo de força, de opressão, que não apenas instrumentaliza comunicações, mas que conforma o pensamento, que obriga seus usuários a esse ou àquele padrão; a ter sujeitos antes de verbos ou a ter, digamos, apenas esse ou aquele pronome para escolher.

Acompanhando as notícias sobre o "Rondônia 451", vemos o Secretário de Educação dizer que o tal memorando fora motivado por denúncias de que alguns livros conteriam palavrões! Impossível não sorrir diante da violência e caretice de tal ingenuidade, por mais perigosa que ela seja por estar no poder; e impossível não pensar de novo em Barthes e refletir que justo os palavrões talvez sejam nosso primeiro teste, como seres humanos, com o tal universo da Linguagem e com as estruturas sociais que se encontram ali refletidas; os edifícios do Inadequado, as alamedas do Permitido, as vielas do Apropriado. O que meu mundo social me deixa dizer ou não e o que meu mundo social, por sua vez, permite que me digam.

Na pouca literatura teórica que já consegui vencer sobre literatura infantil (todo dia, socraticamente, descubro que nada sei), já percebi que a "criança tutelada" ainda é uma "vítima" da sociedade como um todo, de nossas vontades de exercer pequenas censuras cotidianas traduzidas em listas de faixas etárias e adequações. Apesar de por vezes evoluirmos na questão do Infantil atribuindo-lhe certa contextualização histórica e de processo, na maioria dos casos a criança ainda é tratada como abstração cheia de universais, imutável, que merece apenas proteção contra o mundo. Como se a Linguagem fosse só fonte de ameaça e poder nocivo, e não o berço também da empatia, do desvelamento do mundo e do paralelismo das dores e das alegrias do próximo.

Estou terminando a edição de um novo livro, de autoria de Hélio do Soveral, e não por acaso trata-se de mais um caso (na minha opinião) de autocensura inspirada, em 1971, pela atmosfera de opressão oferecida pelo regime militar. Nesta aventura popular na qual Soveral narra, em primeira pessoa, a história de um arqueólogo norte-americano que descobre uma tribo de índios brancos descendentes de vikings, o autor aproveita para criticar os nacons (a casta de guerreiros - qualquer semelhança com castrenses é mera intenção) e sua capacidade de administrar a tal sociedade perdida, após terem assumido o comando com um golpe militar... Porque me deixa muito feliz resgatar um livro das garras das chamas fahreheitianas, das caixas rondonienses da vida e das gavetas (indiretas ou não) da ditadura - do silenciamento, enfim-, divido com vocês, a seguir, para terminar essa longa digressão, os últimos parágrafos de meu Posfácio à obra (de nome A Fonte da Felicidade), já que não me ocorre nada melhor como fecho (e porque é preciso denunciar que a censura e as tentativas de tutela idiota e idiotizada continuarão):


            Em artigo de 27 de maio de 2019 na Folha de S. Paulo, o filósofo Luiz Felipe Pondé, ao contestar as supostas causas da piora no humor dos cada vez mais depressivos jovens latino-americanos, afirma não concordar que, como diz a pesquisa a que se refere, a perseguição à liberdade de expressão possa estar verdadeiramente entre elas, as causas (ainda que assim declarado pelos entrevistados). Segundo Pondé,
a maioria esmagadora da população não liga para liberdade de expressão. Só quem liga para ela são jornalistas, professores, artistas ou intelectuais em geral. A menos que a repressão sobre a liberdade de expressão torne seu jantar impossível, ela que se dane. (PONDÉ, 2019. Grifo nosso.)


Pode até ser que, como afirma o filósofo, preocupações com a censura e com o cerceamento da circulação de ideias em toda e qualquer sociedade sejam uma espécie de "sexo dos anjos", isto é, um debate algo abstrato e elitista que não cabe na maioria das mentes mais ocupadas com a urgência de ver o pão servido sobre a mesa. Para aqueles privilegiados que garantiram já o jantar, porém, e que talvez por isso voltem suas inquietações para outras esferas, é de extrema importância revisitar estes períodos em que o pão do espírito nos foi negado; negado não por escolha, mas por imposição. A publicação em livro dos originais silenciados de A Fonte da Felicidade, de Hélio do Soveral, recoloca sobre nossas mesas esta quase apagada amostra de nossa surpreendentemente engajada literatura popular; este jantar tornado impossível (mas agora não mais) pela ditadura militar dos anos 1970.




PONDÉ, Luiz Felipe. "World Peace". Folha de S. Paulo online. 2019. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/luiz-felipe-ponde/jovens-burguesia-luiz-felipe-ponde/>. Acesso em: 28 mai. 2019.